Brainfacturing, por Accenda
Brainfacturing é a denominação dada ao conjunto de atividades econômicas no qual um produto (geração de riqueza real) é criado por meio de atividade intelectual, tendo como matéria-prima uma base de conhecimento previamente existente. Enquadram-se nesta definição atividades como pesquisa e desenvolvimento, softwares e projetos de design. Apesar de não se alinhar perfeitamente à proposta original de Porat, que expande o modelo de Colin Clark de divisão da economia em três setores, brainfacturing é muitas vezes associado ao setor quaternário da economia.
Define-se brainfacturing como toda a atividade que produz um resultado final concreto que não teve sua origem em um processo industrial, de manufacturing (manufatura, em português). Este conjunto de atividades também se diferencia do setor terciário, pois não há uma prestação direta de serviços de uma pessoa (ou grupo de pessoas ou empresa) para outra.
O modelo de organização da economia baseada na divisão por setores de atividades, originalmente proposto por Colin Clark, em 1940, divide a atividade econômica em três setores básicos: extração de matéria-prima e agropecuária (primário), manufatura (secundário) e serviços e comércio (terciário).
Com base neste modelo de divisão, Fourastié identificou uma transformação estrutural na distribuição da força de trabalho baseada em três fases: na primeira, chamada de civilização tradicional, a força de trabalho concentrava-se predominantemente em atividades primárias; na segunda fase, a civilização industrial, a maior concentração da força de trabalho estabeleceu-se no setor secundário. Na terceira fase, civilização pós-industrial, a maioria da força de trabalho passou a se concentrar no setor terciário da economia.
A partir deste modelo inicial foram propostos vários estudos e derivações. Em 1976, Porat, em sua tese de doutoramento, propôs uma extensão da divisão da economia em três setores, acrescentando um quarto setor (quaternário) que concentrasse todas as atividades baseadas em informação.
O modelo de divisão em quatro setores nasce da identificação de uma categoria particular de atividade que engloba em sua estrutura a produção, o processamento e a distribuição de mercadorias e serviços de informação, sejam eles mercantis ou não-mercantis. Não é fruto meramente da necessidade de se dividir o inchado setor terciário que, para muitos autores, tornou-se uma agregação de várias atividades distintas, criando dificuldade de expressar processos específicos que ocorrem em seu interior. A real razão para o aparecimento deste setor na economia, portanto, está baseada no surgimento de um novo padrão de atividades, típico das indústrias do conhecimento.
O quarto setor agrupa principalmente serviços intelectuais como pesquisa e desenvolvimento, criação e compartilhamento de informações, educação, design e software. De forma mais ampla, agrega todas as atividades destinadas à produção do conhecimento.
Teses contrárias a este conceito condenam a subjetividade do “conhecimento” como fruto de um processo produtivo. Esta argumentação é rebatida por Porat e outros estudiosos como Araújo (1996), Malin (1994), Marengo (1996) e Naisbitt (1989), que identificam a informação e o conhecimento como recursos estratégicos, de agregação de valor e como elemento de competição econômica e política entre países, estando os países do centro mais desenvolvidos em relação à criação de conhecimento e à educação de ponta da força de trabalho do que os países da periferia, onde ainda predominam a produção baseada em manufacturing, com mão-de-obra pouco qualificada.
Apesar de guardar uma grande similaridade ao conceito de setor quaternário proposto por Porat, a definição de brainfacturing tem um significado mais concreto. Porat, em sua definição, agregou em um único setor todas as atividades baseadas em informação. Já o conceito de brainfacturing restringe sua abrangência às atividades que produzem riqueza real, mensurável e tangível a partir da atividade intelecutal, tendo como “matéria-prima” uma base de conhecimento previamente existente.
Deste modo, é possível fazer um paralelo claro entre as atividades de brainfacturing e as de manufacturing , tendo em vista que a diferença destes dois conceitos se baseia simplesmente na distinção dos mecanismos e matérias-primas utilizados para a criação de produtos. Em brainfacturing, o conhecimento e o esforço intelectual, ou seja, duas fontes formadoras intangíveis, transformam-se em riqueza real e mensurável.
Neste contexto, são claramente atividades de brainfacturing a indústria de software e as iniciativas de pesquisa e desenvolvimento, por criarem produtos com valor real que, em última instância, podem ser vendidos. Em contraposição, e discordando dos argumentos de Porat, atividades ligadas a educação são, pela definição de brainfacturing, práticas relativas ao setor de serviços (terciárias), pois não se encaixam no conceito de criação de algo mensurável que pode ser vendido ao final de um processo, como é o caso de patentes e softwares.Pode-se observar a distinção das atividades de manufacturing e brainfacturing na indústria farmacêutica, na qual o produto final das atividades de pesquisa e densenvolvimento (brainfacturing) é claramente materializado em patentes com valor real, e convive paralelamente com a geração de produtos físicos frutos da atividade de manufacturing. Este exemplo também ilustra a forte interligação entre as atividades destes dois setores, no qual o produto de uma atividade de brainfacturing se transforma em “matéria-prima” para a atividade de manufacturing, compondo com outras matérias-primas provenientes dos setores primários e do próprio setor secundário. A relação de interdependência entre os quatro setores pode ser observada no gráfico abaixo.







Muito interessante o texto e agora… mais que um pitaco… uma questão na qual “viajei”durante a leitura. É possível a propaganda, de modo geral, com todas as suas ferramentas e movimento estratégicos, possa migrar em algum momento do grupo terciário para o quaternário? Ou será que já até estamos fazendo isso?
Gostei muito da proposta geral do grupo. Parabéns!
Silvana Pocay
Silvana,
na minha opinião, dois fatores definem se uma atividade pode ser enquadrada como brainfacturing:
Primeiro: modelo de precificação independente do modelo de custo. No caso da propaganda, a forma com que vendemos o resultado do nosso trabalho não está ligada – ou pelo menos não deveria estar ligada – ao custo direto da mão de obra e das “matérias-primas” que utilizamos. O modelo de custo é independente do modelo de geração de receita e isso é muito fácil de ser percebido quando, por exemplo, o trabalho envolve veiculação em mídia.
Segundo: perenidade produto. Isso também acontece na propaganda. O que produzimos não acaba ao final da prestação de serviço. Pelo contrário, criamos produtos que, por mais que sejam específicos ou de curta duração útil, ficam para a posteridade e podem ser resgatados depois de muito tempo.
Agora, respondendo objetivamente a sua pergunta: sim! O que fazemos, na propaganda, é brainfacturing. E entender isso ajuda a darmos ainda mais valor ao resultado do nosso trabalho.